A ciência não pensa.
Estamos em ambiente acadêmico. Neste sentido, o conhecimento que se mostra como “crível” é aquele apresentado pela ciência em seus diversos ramos. De certo modo, não apenas na Academia, mas em nosso viver cotidiano aprendemos a pensar o mundo através do que enxergamos pelas lentes do conhecimento científico. Mas, será tal tipo de conhecimento o único possível – ou, o melhor – para se falar da realidade? Quero frisar a ideia de “crível” que apresentei acima: sim, nós passamos a acreditar na ciência, e é esta crença que constrói seu valor.
Acreditar no que diz a ciência significa entender que ela tem condições de dizer a verdade do mundo. Porém, fazemos mais: acreditamos unicamente no dizer científico, quase nunca dele desconfiando. “O cientista virou um mito. E todo mito é perigoso, porque induz o comportamento e inibe o pensamento. Esse é um dos resultados engraçados (e trágicos) da ciência. Se existe uma classe especializada em pensar de maneira correta (os cientistas), os outros indivíduos são liberados da obrigação de pensar e podem simplesmente fazer o que os cientistas mandam” (ALVES, Rubem. Filosofia da ciência). O que devemos enxergar é que acabamos por aceitar cegamente o “pensamento” da ciência – quando é justamente este aceitar acrítico que deveríamos rechaçar no âmbito acadêmico.
A ciência ainda fica na superfície da realidade, explicando o funcionamento do mundo, apenas tocando problemas que sua fala consegue alcançar. Entretanto, a existência se resume àquilo de que a ciência pode falar? Há algo mais? Com certeza; pois nosso viver, a cada instante, apresenta-se com novo problema e novo significado. Além daquilo que a ciência fala, resta o mistério do mundo. E tenho, aqui, certo receio na utilização do termo “mistério”, pois não sugiro qualquer sentido religioso. O mistério da existência não é o “ainda-não-elucidado-pela-ciência”, mas sim aquilo que a ciência nunca alcançará com seu falar, simplesmente por ser algo que a transcende.
O pensar/falar da ciência se restringe a certas regras e, além delas, nada mais é objetivado. “A ciência não pensa, ela calcula, analisa e sintetiza seus conhecimentos sem nem se dar conta do espaço onde surge a pesquisa” (HÜHNE, Leda. O poetar pensante). E qual é exatamente este “espaço”? é o espaço do questionamento refletido que transcende o lógico; é a vivência do mundo – em seu mistério – que faz brotar a questão do sentido do próprio existir. Entendo que Fernando Pessoa – Alberto Caeiro – tenha dito que O único sentido íntimo das coisas / É elas não terem sentido íntimo nenhum, no mesmo caminho do significado que damos ao “sentido das coisas”. A ciência não é capaz de falar do sentido das coisas; assim, se dissermos que “sentido” é aquilo que a ciência interpreta, com o poeta também diremos que o sentido das coisas é elas não terem sentido.
Deste modo, precisamos pensar mais, e não somente calcular. Muitas vezes, a fala da arte – e cito o poetar como arte – responde aos nossos questionamentos de modo mais significativo e completo que a teoria científica mais elaborada. A ciência, sim, exige uma crença; a poesia, não.
Encerro com breves palavras com as quais, um dia, arrisquei-me a falar desta relação:
Ciência e poesia
Dois caminhos… um mesmo chão.
Quanto mais científico
Mais se dá o poético.
O invisível não se vê
Está lá… sonhado, imaginado.
O poeta sente, mesmo sem falar
A fala do cientista
Que é o nu olhar.
…
É rizível criticar
Luís Fernando Crespo, professor do UniSEB Interativo.
Tweet





