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Da educação como um assassinato categórico.

Categorias: Educação, Filosofia  |  Tags:

Ao ler o texto de Fernando Luís Schüler, publicado por um grande jornal  em 02/02/2012, intitulado Um apartheid silencioso, deparei-me com uma problemática bem conhecida por todos nós, porém que recebe muito menos atenção do que deveria: a educação passa por problemas graves. Na verdade, não é de hoje – e por isso é bem conhecida – que a situação da educação pública vem sofrendo com o descaso daqueles que deveriam ser os primeiros a prezar por ela: os governos.

No fundo, a ideia do texto é a de que o sistema, da maneira como está organizado e da maneira como organiza o fazer educação, acaba por dividir a população de alunos, criando o grupo daqueles que não terão condições de competir com os advindos do sistema educacional privado – daí podermos dizer de um apartheid. E a situação se torna silenciosa porque quem realmente tenta erguer a voz contra o problema é apenas quem não tem poder suficiente para alguma modificação, tendo seu grito abafado pelos detentores do poder.

Neste texto que escrevo, trago como título a ideia de “assassinato categórico”, a partir do texto Assassinatos categóricos, ou o legado do século XX e como relembrá-lo, da autoria de Zygmunt Bauman. Penso eu que, fazendo uma analogia (pois o autor trata da temática dos holocaustos), seja possível pensar a mesma educação tratada por Schüler, porém não mais como apartheid, e sim como um holocausto – um assassinato categórico.

Bauman afirma que “O assassinato categórico, como a capina (ou, de forma mais genérica, toda e qualquer atividade de ‘limpeza’ e ‘purificação’), é uma destruição criativa. Pela eliminação de tudo de deslocado e inadequado (como ‘estrangeiros’ ou unwertes Leben), a ordem é criada ou reproduzida”. Mas, qual limpeza poderia ser pensada ao olharmos para a realidade da educação pública? É o sistema que vai limpando a si próprio da participação cidadã, consciente e crítica de milhões de pessoas. É preciso possibilitar apenas a alguns – os bem nascidos – as condições necessárias para um verdadeiro crescimento humano e racional, verdadeiramente espiritual. E assim, quem não tem como pagar, acaba na lista do muitos que serão lançados para a “situação sem escolha”, categórica.

A situação é paradoxal. O paradoxo existe exatamente por percebermos que a sustentação do sistema está exatamente na grande massa de condenados. É mera ilusão a crença de que todo cidadão brasileiro, estando na escola, terá melhores condições que aquelas que seus pais tiveram; todos estão condenados: seus pais, eles próprios, seus filhos e assim por diante. Não há como luta – simplesmente por não haver luta. Bauman ainda afirma que o “assassinato categórico é o absoluto oposto do combate, da confrontação entre duas forças, ambas inclinadas a destruir o adversário, ainda que uma delas fosse incitada apenas por auto-defesa, tendo sido provocada, atacada e levada ao conflito pela hostilidade do outro lado. O assassinato categórico, do começo ao fim, é uma questão unilateral”.

Deste modo, os condenados continuarão a nascer aos milhares todos os anos; já nascem condenados. E por quê? Simplesmente por nascerem no grupo dos condenados. E este círculo gira como motor que faz o sistema funcionar. É necessário alguém que faça o motor parar? Talvez seja preciso mesmo é outra máquina.

Luís Fernando Crespo, professor de Filosofia do Centro Universitário UniSEB, presencial e EaD

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