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Filosofando sobre o ponto final.

Categorias: Filosofia  |  Tags:

Primeiramente, vou dizer um segredo a você que lê estas palavras. Mas guarde bem, pois é um segredo muito profundo do qual ninguém pode saber. Respire profundamente para saber a verdade… lá vai: você vai morrer um dia. Assustou? Não?! Ah, é mesmo… esta é a única verdade da qual todo ser humano sabe. Isso acontece, pois, desde que nascemos, unicamente estamos prontos para a morte, que é a única certeza. Mas, o que é a morte?

A morte é o fim da vida… Mas, o que é a vida? (pergunta sem resposta)

Um dos grandes motivos da inquietação humana é saber de sua morte. Devemos parar e perceber que somos os únicos animais que têm consciência de sua finitude. Talvez tal fato é que tenha levado o ser humano a, na maioria das vezes, fugir da morte – mesmo que não seja uma fuga real, foram criadas diversas interpretações e fugas na teoria. Já diziam os epicuristas que um dos remédios para ser feliz é não temer a morte, pois ela é o que de mais natural há na vida. E, mesmo assim, este ser que sabe de sua finitude tenta não encarar tal situação.

Michel de Montaigne (1533-1592) tinha a ideia de que filosofar é aprender a morrer. Vou ser bem sincero a vocês: se tal ideia for verdadeira, então preciso ainda filosofar muito, pois quando amamos a vida, é bem complicado pensarmos o fim dela. Na verdade, entendo que o que a Filosofia faz é nos salvar do medo da morte, como muitas religiões fazem (esta ideia é de Luc Ferry).

Talvez, por ser a única certeza da vida, não paremos para nela pensar: quando a morte chega, já não estaremos aqui, pois vida e morte são excludentes. Por isso, o que o filosofar nos mostra não é a tristeza por sabermos que existe o fim, mas sim que devemos aproveitar enquanto a morte não nos tira o tempo: quando a morte chegar, nosso tempo terá acabado. Mas, então, vou aproveitar não pensando no morrer – será o caminho? Não.

Muitas pessoas agem de tal modo como se nunca fossem morrer e, por conta disso, acabam não vivendo plenamente da maneira como poderiam. O que seria isso? Tomo como auxílio o pensamento de um filósofo contemporâneo – Martin Heidegger (1889-1976). Este pensador entende que, sendo a morte o último ponto ao qual o homem chega, é aí que conhecemos o ser humano em sua plenitude – o máximo que alguém fez de si. Possibilidade da impossibilidade de toda possibilidade… eis o que é o fim. Somente quando o ser humano antecipa a morte (que não significa morrer, mas trazê-la sua certeza no presente) ele pode passa a enxergar a realidade com mais clareza, pensando melhor em sua realização.

E por quantas experiências de morte já passamos? Com certeza, por muitas. A experiência de morte é aquela pela qual algo entra para o conjunto das coisas que nunca mais voltam. Por exemplo, nossa infância ficou para trás e nunca mais voltará ou algumas oportunidades na vida, que são da mesma maneira.

E a Filosofia, onde exatamente está? Justamente na reflexão sobre nosso existir finito. Não deve ser motivo de desespero, mas algo encarado com naturalidade. Pensando de outro modo, às vezes me enveredo a poetar e a situação da morte é quando ponho o ponto final; a partir dali, aquela poesia chegou ao seu fim, não mais sendo mudada. Nossa vida é nossa poesia que ainda não chegou ao ponto final. Fernando Pessoa diria que o homem é um “cadáver adiado”.

Prof. Me. Luís Fernando Crespo, coordenador do curso de Filosofia

  • 4 responses to "Filosofando sobre o ponto final."

  • Comment posted on 14th junho 2011 at 14:26 José Eduardo Martin

    Mestre, obrigado pelas reflexões.
    O texto nos ajuda a despertar a “consiencia” para as verdades sobre a nossa existencia, e adotar novos e melhores valores, como o desapego da matéria e a valorização do espiritual…

  • Comment posted on 16th junho 2011 at 2:49 Luís Fernando Crespo

    Também penso que seja esta a necessidade, José Eduardo. Precisamos pensar no espiritual, mas não no sentido religioso, e sim no espírito humano – temos condições de ser mais humanos…
    Abraço

  • Comment posted on 16th junho 2011 at 13:27 Fernanda Spilla Ferras

    Prof.Luís Fernando Crespo
    O texto mostra,que a morte é a parte integrante da vida,as pessoas negam isso,e vivem como se nunca fossem morrer!O curioso é que a sociedade impõe aos seus membros ás suas imposições educacionais.Mas eu tenho a consciência de que o importante não é o que a vida faz comigo,mas o que eu faço com a minha vida,e sobretudo o que eu faço com o que a vida faz comigo!
    Abraços

  • Comment posted on 19th outubro 2012 at 23:46 Luís Fernando Crespo

    Olá Fernanda…

    Penso que seja esta a ideia realmente. Apenas para ilustrar seu pensamento com uma frase de Sartre:

    “Não importa o que se fez do homem, mas sim o que este homem vai fazer daquilo que fizeram dele.”

    Abraço

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